BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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Entre quatro paredes

Em um intervalo de poucos dias, assisti a três filmes que apresentam seus protagonistas confinados e vivendo diferentes tipos de pesadelo. A idéia mais original, sem dúvida, é a de "Cubo", filme já cultuado e que revi para confirmar ser tão interessante quanto se revelou à época do lançamento. Completam o grupo, duas produções mais recentes: "O Olho que Tudo Vê", de 2002, e "Jogos Mortais", um supreendente sucesso comercial nos cinemas brasileiros.

Desenvolver uma trama num espaço cênico restrito não é exatamente novidade no cinema, especialmente quando falamos de gêneros como suspense e terror. Há algo de muito ameaçador na simples idéia do isolamento, um tipo de temor que parece assombrar as mentes humanas desde a infância e que, nesse sentido, se assemelha ao medo do escuro.

Essa forma primitiva de pavor foi explorada com sucesso por alguns mestres no passado, como Roman Polanski (em pelo menos 5 ou 6 momentos de sua filmografia, mas mais notadamente em "Repulsa ao Sexo" e "O Inquilino”), George Romero (em toda a trilogia de zumbis), Stanley Kubrick (“O Iluminado”), entre outros.

Independentemente do intervalo entre as décadas ou do bom aproveitamento do tema, os três filmes abaixo comprovam que a idéia do confinamento continua sendo bastante desagradável.


***





Cubo
(Cube/1997)
Direção: Vincenzo Natali

Trancar gente em apartamentos, hotéis, cabanas ou mansões tem longo histórico no cinema, mas o claustrofóbico filme canadense "Cubo" contribuiu positivamente com uma variação do tema.

Sem como ou porque, um grupo pessoas acorda dentro de salas com paredes que parecem espelhar imagens de caleidoscópio, cada qual com uma cor predominante. As salas têm passagens na forma de pequenas portas de aço que levam a outras salas, que levam a outras salas, que levam...

Não existe observador onisciente na história e o espectador sabe tanto sobre o lugar quanto os personagens. Pouco a pouco, se desenham as inevitáveis tensões de grupo e eles descobrem que, para confirmar o absurdo da situação, estão trancafiados num gigantesco cubo de metal – espécie de labririnto hi-tech cheio de armadilhas mortais e combinações matemáticas. Colabora imensamente com a atmosfera do filme, a falta de informações sobre seu principal personagem: o cubo.
O lugar deve ter uma razão de existir e as pessoas provavelmente estão ali por algum motivo. Mas qual?! Nas elucubrações dos próprios personagens, tudo é cogitado: Seria obra de aliens? Do governo? Dos militares? Ou de algum milionário excêntrico?

Esse pesadelo kafkiano com uma pé na ficção científica, exibe uma grande virtude de seus realizadores: fazer muito com pouco. O pequeno orçamento nunca fica evidente, embora o filme, diz-se, tenha sido realizado com parcos recursos. "Cubo" teve duas seqüências caca-níqueis realizadas por outros produtores, sendo a última delas uma tentativa de explicar o que o original espertamente omitiu.


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O Olho que Tudo Vê
(My Little Eye/2002)
Direção: Marc Evans

Reality shows tornaram-se parte integrante da idéia contemporânea de entretenimento. Sentar-se no sofá da sala para apreciar as tensões que, obrigatoriamente, surgem entre um grupo de gente enclausurada, é o que grande parte dos brasileiros, europeus e americanos fazem ao voltar do trabalho.
Sabe-se lá se esse voyeurismo tem prazo para cair na obsolescência, mas fato é que, de tão incorporado ao conceito de entretenimento televisivo, o fenômeno anda parindo suas crias. Algumas em forma de paródia, como o desenho animado vagabundo "Drawn Together", outras em forma de versão cinematográfica, casos de "Contenders - Os Sobreviventes" e desse "O Olho que Tudo Vê".

Auto-explicativo, o filme do inglês Marc Evans apresenta, após breve introdução via tela de Macintosh, cinco concorrentes de um reality show realizado para a Internet. O desafio é simples: o grupo deve permanecer durante 6 meses numa casa. Se conseguir, leva 1 milhão de dólares, mas basta um dos concorrentes abandonar o jogo e todos perdem.

Isolamento é apresentado nos moldes de "O Iluminado": casa perdida nas montanhas, cercada de neve e cujo período de confinamento é de dolorosos e incontáveis dias. Um machado usado para outros fins além de rachar lenha também parece homenagear o filme de Kubrick.
O formato, no entanto, é reminiscente dos reality shows. Capturado por câmeras digitais instaladas pela casa, o filme está para o espectador o que o jogo estaria para o internauta voyeur. As imagens noturnas em verde-e-preto, popularizadas na Guerra do Golfo, acrescentam algo ao suspense. O grupo de adolescentes americanos é estereotipado, como em "Evil Dead" ou qualquer "Friday the 13th", e convive em harmonia até a rotina ser quebrada por uma série acontecimentos: caixas enviadas pelos enigmáticos produtores do programa, a sensação de que um estranho poderia estar na casa, entre outras coisas pouco agradáveis.

Leitores de Jack London ou donos de mentes férteis que vêem na vastidão gelada da América do Norte algo de assustador, farão suas próprias interpretações do terror apresentado. O maior medo, nessa visão, é o de não ser encontrado. Algo que parece bem provável no inóspito Grande Norte.





Jogos Mortais

(Saw/2004)
Direção: James Wan

A abertura tem algo de “Cubo”: dois homens trancafiados sem saber onde ou porque. Mas as semelhanças ficam por aí. “Jogos Mortais”, do iniciante James Wan, usa peças avulsas que vão desde os filmes de serial-killers-superinteligentes até clipes de nu-metal.

Jigsaw, a mente criminosa da vez, é um especialista em armar situações pavorosas com o objetivo de dar uma lição a suas vítimas: valorizar a vida. Inspirado por esse desejo, o assassino trancafia pessoas em lugares pouco agradáveis -- como o aparente banheiro de fábrica abandonada em que se passa a história principal -- e dá a elas a tarefa de exterminar uma à outra. Quem cumprir o desejo de Jigsaw, escapa com vida.

A idéia de terror pelo confinamento funciona, mas renderia mais sem os flashbacks usados para explicar o modus operandi do serial killer. O que no princípio parece uma possibilidade de teatro filmado, com cada personagem algemado de um lado do palco, ganha aos poucos o ar de thriller convencional. Apesar dos anacronismos, o bom desfecho salva a lavoura.

Certa dose de mistério também fica no ar e isso é sempre bom.

 Escrito por Mr Eddy às 13h00
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